sexta-feira, 3 de julho de 2009

narrativa de um judeu azarado

Nos dias frios daquela década, a morte pairava no ar. Quando você abria a boca, sentia gosto de cinzas, se fechasse os olhos, ouvia ao longe o sofrimento, os gritos de desespero. Todos escondiam-se, tentavam seguir as regras do Sistema, uma questão de sobrevivência. Eu caminhei pelos paralelepípedos vendo os sobrados aos pedaços, prédios trancados para sempre, abandonados às ações da natureza. E da pólvora.
Levei as mãos aos meus bolsos e, cabisbaixo, fiquei pensando neste mundo, será que existe mesmo?
Mais gritos e explosões. Tomara que este lugar, que já considerei minha terra, seja destruído. Ele não me aceitou e o mundo não o aceitou.
Um turbilhão de memórias me invade. A família reunida, lendo jornal em volta da lareira quente. Uma música nova. A casa aconchegante, com sua cama simples. Os vasos no topo da lareira.
Tantas coisas feitas já tinha visto, tantas mortes havia presenciado... Que horror!
Diante de uma dessas casas abandonadas, parei. Ela parecia fúnebre, como todas as outras... Mas por alguma razão, parei. Seus cômodos empoeirados ainda estavam cheios de objetos pessoais. Por que isso fora acontecer? Subi as escadas, visitei os quartos e ainda estava tudo lá, como se a família tivesse tirado férias. Na melhor das hipóteses, conseguiram fugir para sempre. No entanto o mais provável era que tivessem se juntado aos milhões de nossos irmãos que receberam o sopro da morte. Malditos anos, maldita guerra.
Fui até o porão e achei um piano. Deslizei meus dedos sobre a superfície lisa das teclas, mentalmente tocando minha canção preferida. Sentei-me e comecei a tocar de verdade. De repente, o tempo parou.

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