terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mais um rascunho

A lua cheia contempla-me do lado de fora da minha janela. Olho para o céu e esqueço tudo. Acho que é essa calma inexplicável que eu sinto ao deixar de olhar o mundo à minha volta e concentrar apenas nos astros, é isso que me traz fé. Isso que me faz duvidar da inexistência de algo maior. A onda de paz que envolve meu corpo e, principalmente, meu espírito, provoca um risinho quando penso em gente que acha que acaba aqui. Como poderia?

A recompensa. A mãe tirou as mãos dos olhos de Flávio. O garoto, aliás, jovem adulto, demorou alguns segundos para se acostumar à luz. Tentara imaginar, em vão, o que seus pais prepararam para seu aniversário de dezenove anos. Na verdade, não havia muito o que ele realmente precisava, sendo pertencente a uma classe privilegiada da sociedade brasileira.

A celebração. Piscou algumas vezes e deparou-se com um ousado carro esporte preto. Seus amigos ficariam invejados, foi a primeira coisa que pensou. Exclamando palavras, gírias, de contentamento, sentou no banco do mororista e fingiu estar em uma rodovia. Não esperaria até o dia seguinte para fazer o test drive. Sem uma palavra de agradecimento aos pais, saiu de casa naquela noite. Eufórico, passou na casa de alguns amigos e o grupo dirigiu-se à agitação noturna da cidade onde moravam. Não voltar antes que a luz crua da manhã tocasse suas faces embriagadas era senso comum, verdade indiscutível, pacto silencioso.

A liberdade. Sair toda noite e criar algo diferente virou rotina. As noites quentes de verão abraçavam sua pele fria com relento acariciando-o, chamando-o para a escuridão. Quando se tem dezenove anos, é quase um pecado ficar em casa. Mesmo que a mente racionalize, tente controlar, o corpo é movido por um instinto animal para o mundo exterior.

A onipotência. Certa noite de lua cheia, Flávio fora a uma nova boate da cidade. Avistara a garota que enchia sua mente. Sua forma era perfeita, seu corpo, sensual. Os dois trocavam olhares significativos: ele sabia que o momento chegara. O mundo girava em câmera lenta, apesar de que o menino não fosse do tipo que se apaixona. Seu corpo, porém, sucumbia aos efeitos da bebida. Tomando a dianteira, tentando medir suas palavras, conseguiu o que queria. Em meio a toques e carícias, sussurrou em seu ouvido que a queria. Como se fossem um, foram ao encontro do ar invasivo da noite. Ele sentiu que era o dono do mundo.

A punição. O triunfo que sentia era quase sufocante: o peito inchava e respirar já não era tão fácil. Poderia explodir de alegria e satisfação. Estava cego, eufórico e desatento ao que acontecia por ali. De um lado, segurava o volante, do outro, mãos entrelaçadas. Ela tinha um olhar felino, que o devorava. Estava em êxtase total. Repentinamente, por seu lado esquerdo, não se deu conta do leão faminto que se aproximava. O motorista do caminhão de carga já dormia no volante, tendo dirigido por mais de um dia sem descanso. Com um baque surdo, três vidas esvaíram-se de seus corpos; a montanha desmoronou.


Odeio esses textos amadores. Sério.

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