terça-feira, 18 de agosto de 2009

VIDA INVISÍVEL

Era a terceira vez que sacudia meu nariz para livrar-me do isopor branco que o céu cuspia em minha cabeça naquele dia singularmente frio. Caminhava taciturno pela calçada larga, encolhido. Os passantes também escondiam-se como coelhos em suas tocas de lã ou casimira, compradas em promoção no ano anterior.

Alguns metros à minha frente, um burburinho atraiu meus olhos. Meia dúzia de pessoas estavam reunidas em torno de um homem de cabelos prateados. Ao me aproximar do local, informei que era da polícia e indaguei o que ocorrera. "Só vimos um moleque esbarrar nele, correndo". Claro, o velho era só um obstáculo, então deixou-o no chão como um vira-latas esquecido na pista amarga de concreto.

O idoso tinha um nome: Adenor. Já de cócoras, perguntei se estava tudo bem. Uma mulher rechonchuda, de voz esganiçada, interrompeu-me dizendo que o homem não queria paramédicos envolvidos. Ele dirigiu-se a mim: "Sabe, a gente vive como pode. Contudo, ninguém neste lugar reconhece que trabalhei, e muito. Chegou minha hora de descansar". Verdade, a sociedade é hipócrita assim mesmo. "Entretanto, veja o retorno que tenho. Não quero levantar, para mim chega".

Refleti por uns instantes. Ele estava certo: não havia solidariedade, eu bem o sabia. O homem tinha claramente fraturado seus frágeis ossos e sua alma. Quisera eu poder colar os pedacinhos, levá-lo para casa e explicar-lhe que nem todos eram assim, que existiam pessoas diferentes. "Doce ilusão", disse o grilo que mora atrás da minha orelha.

- Fé em Deus era o que me mantinha de pé. O tempo acabou, deixe-O me levar embora - disse o homem.

Os curiosos se dispersavam. Eu fiquei ali, sem querer contrariá-lo, esperando a morte chegar. Meu pai devia ter aquela idade. Iria abraçá-lo assim que eu chegasse em casa, anotei mentalmente. Já era quase noite quando os olhos do homem perderam seu brilho meio opaco. Fecharam-se eternamente para aquele mundo ingrato.

Tirei o celular do bolso... Dei um suspiro inconsolado. Fora uma fatalidade dessas invisíveis aos olhos do cidadão comum, dessas que acontecem todos os dias.


Nada a declarar, estou com muito sono para isso.

Um comentário:

Bela Sartor disse...

Oiiii! Que bom que gostou do blog!
Ah... nome daquele filme é O Efeito da Fúria.
Beeeeijo.

 

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